Os Ponce
A família de Gines Ponce Navarro e Maria Josefa Alarcón Torregrosa, de Cuevas del Almanzora aos cafezais de São Paulo e às terras do Paraná.
- Cuevas del Almanzora
- Santos, 1897
- Casa Branca e Cravinhos
- Penápolis e Promissão
- Norte do Paraná
No dia 18 de novembro de 1897, um funcionário da Hospedaria de Imigrantes de São Paulo escreveu, com caligrafia cuidadosa, sete nomes num livro de capa dura: um pai de 25 anos, uma mãe de 34 e cinco crianças — a mais nova com apenas seis meses de vida. Eram Gines Ponce Navarro, Maria Josefa e os filhos que tinham trazido de Cuevas del Almanzora, no sul da Espanha.
Este site conta de onde eles vieram, por que partiram e o que encontraram no Brasil. Depois, quando a história de Gines e Maria Josefa termina, ela se divide: cada filho abriu um ramo da família. Escolha um deles e siga o caminho até os seus.
Separamos o que é fato da família — o que está num documento ou foi contado por parentes — do que é contexto, o que acontecia de modo geral naquele lugar e naquela época. O contexto aparece nos quadros coloridos. Quando um dado é só provável, o texto diz “provavelmente”. Os escrivães escreviam os nomes de muitas maneiras (Gines, Ginez, Jines; Alarcón, Alarcon, Alarção): não são pessoas diferentes, é a mesma família passando pela pena de muitos cartórios.
| Nome | Parentesco | Idade |
|---|---|---|
| Gines Ponce Navarro | pai | 25 |
| Maria | mãe | 34 |
| Gines | filho | 10 |
| Catalina | filha | 9 |
| José | filho | 7 |
| Maria | filha | 2 |
| Lorenzo | filho | ½ |
Sete nomes, uma família inteira. Antonio, o caçula, nasceria no Brasil.
- ICuevas del AlmanzoraEspanha
- IIA decisão de partirEspanha
- III18 de novembro de 1897Santos e São Paulo
- IVColonos de caféCasa Branca e Cravinhos
- VO sertão do NoroestePenápolis e Promissão
- VIGines e Maria Josefa, avós1912–1948
- VIIOs filhos: escolha um caminhoseis ramos
IEspanha
Cuevas del Almanzora
a terra dos Alarcón e dos Ponce
Os Ponce e os Alarcón vinham de Cuevas del Almanzora — nos documentos antigos, simplesmente Cuevas, ou Cuevas de Vera —, uma vila do leste da província de Almería, no extremo sudeste da Espanha. A vila fica no vale do rio Almanzora, a poucos quilômetros do Mediterrâneo, cercada por morros secos e pela Sierra Almagrera, uma serra baixa e escura que, no século XIX, fez a fortuna de muita gente.
O nome da família aparece nesse momento. Em 18 de abril de 1840, a Gaceta de Madrid, o diário oficial do governo espanhol, publicou as minas registradas em fevereiro na inspeção de Granada e Almería. Entre dezenas de pedidos no termo de Cuevas lê-se: “Otra [mina plomiza], cerro Alto, término de Cuevas, Nuestra Señora del Rosario, por Gines Ponce Navarro”. Um homem com exatamente o mesmo nome do imigrante de 1897 registrava, no auge da febre da prata, uma mina de chumbo. Pela data, era de outra geração — talvez um avô ou tio-avô do nosso Gines —, mas nenhum documento encontrado até agora prova o parentesco.
Oito anos depois, em 30 de junho de 1848, a mesma Gaceta publicou as listas de moradores de Almería que assinaram uma mensagem de apoio à rainha Isabel II. Na lista de “Cuevas de Vera” aparecem, lado a lado, vários Ponce: Ginés Ponce Navarro, José Ponce Rodríguez, Ginés Ponce Gómez, Manuel Ponce Valero, Salvador Ponce Navarro. É um retrato da vila em meados do século XIX — e mostra como o sobrenome Ponce, e a combinação Ponce Navarro, faziam parte do cotidiano de Cuevas.
José Alarcón Ponce e Concepción Torregrosa Rubio
Os pais de Maria Josefa chamavam-se José Alarcón Ponce e Concepción Torregrosa Rubio. Pelo costume espanhol, cada pessoa carrega dois sobrenomes: o primeiro do pai e o primeiro da mãe. Assim, José era filho de um Alarcón com uma Ponce — o sobrenome Ponce já estava dos dois lados da família muito antes do casamento de Gines e Maria Josefa.
José e Concepción eram naturales de Cuevas, isto é, nascidos ali, e eram proprietários: tinham terras. O primeiro rastro deles é de 1856. No livro de hipotecas do partido de Vera — onde se anotavam as compras e vendas de imóveis —, os dois aparecem juntos, unidos por uma chave, como compradores de uma propriedade vendida por Miguel Úbeda Navarro. Aparecerem juntos já em 1856 mostra que, naquela data, eram casados.
Quinze anos depois, em 7 de outubro de 1871, José compareceu perante o notário Francisco Gutiérrez Soto, em Vera, para comprar mais terra. A escritura nº 158 o descreve como “casado, proprietário, maior de idade, morador da vila de Cuevas”, inscrito na Diputación del Largo — uma das áreas rurais em que se dividia o enorme município. A terra ficava na huerta de los Cervelleras, uma zona de hortas irrigadas do termo de Cuevas.
José e Concepción tiveram, pelo menos, três filhas: Maria Josefa, Antonia e Josefa. Duas delas aparecem em batismos de netos nas cidades mineiras da vizinha província de Múrcia. Em 22 de maio de 1889, em Águilas, foi batizada María de la Concepción Prudencia, filha de Antonio Aleca e de Antonia Alarcón, “de Cuevas”; o padre anotou como avós maternos “José Alarcón Ponce y María de la Concepción Torrelosa [Torregrosa] Rubio, de Cuevas”. Em 1900, em La Unión, foi batizada Ana María, filha de Lorenzo Ponce e de Josefa Alarcón; o padre anotou que os avós eram “naturales todos de Cuevas de Vera (Almería)”. É esse registro que confirma, com todas as letras, a origem da família.
Ginés Ponce Martínez e Catalina Navarro
Do lado paterno, a família guarda os nomes dos pais de Gines: Ginés Ponce Martínez e Catalina Navarro. O sobrenome do filho — Ponce Navarro — está de acordo com essa tradição. O casal ainda não foi encontrado num documento que os ligue diretamente ao filho, mas há uma pista forte: nos protocolos notariais de Vera, entre 1866 e 1874, aparece um Ginés Ponce Martínez, proprietário em Cuevas, dono da “casa número cuarenta y dos” no pago de Los Cervelleras e de uma terra irrigada na mesma huerta onde José Alarcón Ponce compraria terra em 1871. Se for ele — o que é provável, mas ainda não provado —, as famílias do noivo e da noiva eram vizinhas de horta.
Mais pistas sobre os Ponce de Cuevas estão em Pistas e perguntas.
IIEspanha
A decisão de partir
Gines e Maria Josefa
Ao chegar ao Brasil, Gines Ponce Navarro declarou 25 anos e Maria Josefa, 34 — o que daria nascimentos por volta de 1872 e de 1863. A idade de Gines surpreende: com 25 anos, ele teria uns quinze quando nasceu o filho mais velho. Pode ser exatamente isso, ou um engano de quem declarou ou de quem escreveu; só o batismo dele, em Cuevas, poderá dizer. Casaram-se na Espanha, em meados da década de 1880, e tiveram ali cinco filhos: Gines, nascido por volta de 1887; Catalina, por volta de 1888; José, em 1890; Maria Concepción, em 1895; e Lorenzo, nascido em 1897 em Cuevas.
Lorenzo ainda era um bebê de colo quando a família inteira atravessou o oceano. Os documentos não dizem por que partiram. Mas dizem muito sobre o momento em que partiram.
A Espanha não esqueceu Lorenzo
Vinte anos depois da partida, a Espanha ainda procurava o bebê da travessia. Pela lei, todo rapaz devia ser alistado no município onde tinha nascido. Em 18 de fevereiro de 1918, a Gaceta de Madrid publicou um edital do prefeito de Cuevas convocando os moços nascidos em 1897 “cujo paradeiro se ignora”; quem não se apresentasse seria declarado prófugo. Na lista está “Lorenzo Ponce Alarcón, de Ginés y María” — a prova de que Lourenço nasceu em Cuevas del Almanzora. Naquele mesmo ano, sem saber de nada disso, ele se casava pela primeira vez no interior de São Paulo.
IIISantos e São Paulo
18 de novembro de 1897
a chegada
O navio que trouxe Gines, Maria Josefa e os cinco filhos chamava-se Les Alpes — é o nome anotado na coluna “vapor” do livro da Hospedaria de Imigrantes. Desembarcaram no porto de Santos e subiram a serra de trem até a capital. Em 18 de novembro de 1897 foram registrados na Hospedaria, sob o número de ordem 3517.
O registro traz outras informações preciosas. Na coluna “Conta do Governo”, a anotação “G. E.” indica que a passagem foi paga pelo governo do Estado de São Paulo. A nacionalidade é “hespanhola” e a religião, católica. E a última coluna diz para onde a família foi mandada: Casa Branca, para a fazenda de João d'Oliveira Lima.
IVCasa Branca e Cravinhos
Colonos de café
Casa Branca e Cravinhos
Casa Branca é uma cidade do nordeste paulista, servida pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, numa das regiões que mais plantavam café no fim do século XIX. Para lá seguiram Gines, Maria Josefa e as crianças. Não sabemos quanto tempo ficaram na fazenda, mas trabalhar como colono de café era o destino de quase todas as famílias que chegavam nessas condições.
Os Ponce cresceram no Brasil. Por volta de 1899-1900 nasceu aqui o sexto filho, Antonio — o único brasileiro de nascimento entre os irmãos. A certidão de óbito dele diz que era “natural de Cravinhos”: poucos anos depois da chegada, os Ponce já tinham deixado Casa Branca e trabalhavam em Cravinhos, vizinha de Ribeirão Preto, no coração da maior região cafeeira do estado. Os filhos mais velhos logo começaram a trabalhar ao lado dos pais.
VPenápolis e Promissão
O sertão do Noroeste
Penápolis e Promissão
A família seguiu a fronteira do café. Em 1912 os Ponce já estavam na região de Penápolis: ali nasceu Maria, filha de José e de Maria da Silva Ramos, e no registro os avós paternos são Ginez Ponce Navarro e Maria Alarcón Torregrosa. Em 1917, em Penápolis, Maria Concepción casou-se com Rogério Martins Garcia; em 1918 foi a vez de Lourenço, que em 1924 se casou de novo, com Felippa Peres Barea. Os filhos de Gines e Maria Josefa iam formando as próprias famílias, quase sempre com outros filhos de imigrantes espanhóis.
VI1912–1948
Gines e Maria Josefa, avós
a velhice entre os filhos
Gines e Maria Josefa passaram a velhice entre os filhos. Ele é citado como avô em registros de netos em Penápolis (1912), Promissão (1927) e Sales Oliveira (1932). Nos anos 1920 e 1930 quase toda a família vivia em Promissão e arredores: Catalina com José Molina Algarte e os filhos, no distrito de Dinísia; Gines com Soledade; Maria Concepción com Rogério Martins Garcia; Lourenço com Felippa; José e Antonio entre Promissão, Penápolis e Getulina.
Depois, um a um, os filhos atravessaram o rio Paranapanema rumo ao norte do Paraná. Antonio foi para Londrina em 1936; Gines e José, para Rolândia, onde Gines morreu de tifo em janeiro de 1939. O registro de óbito dele traz uma informação preciosa: o pai, “Giné Ponce Navarro”, já tinha morrido, e a mãe, “dona Maria Alarcon, hespanhola”, vivia em Promissão. Maria Josefa ficou em Promissão, perto de Catalina, quando os filhos homens partiram.
Em setembro de 1948, quando morreu Antonio, a certidão já dava Gines e Maria Josefa como falecidos. A data da morte de Gines continua incerta, mas agora se sabe que foi antes de janeiro de 1939 — a data de 2 de agosto de 1948 que a árvore da família registra, sem documento, não pode estar certa. Há o óbito de um “Gines Ponce Navarro”, lavrador, de 54 anos, em Sales Oliveira, num mês de agosto de ano mal indexado (talvez 1914), que pode ser dele. Maria Josefa morreu entre janeiro de 1939 e setembro de 1948, provavelmente em Promissão; o registro ainda não foi encontrado.
Cinquenta anos depois de desembarcar em Santos com cinco crianças, o casal de Cuevas deixava dezenas de netos espalhados pelo Noroeste paulista e pelo norte do Paraná. A partir daqui, a história se divide.
VIIseis ramos
Os filhos: escolha um caminho
cada filho de Gines e Maria Josefa abriu um ramo da família
Escolha um dos filhos para continuar a história. Na página de cada um estão o que se sabe dele, a família que formou e os seus filhos — e, a partir deles, você pode seguir descendo até chegar ao seu ramo.
Gines Ponce Alarcónc. 1887 – 1939casou-se com Soledade Martinez Garcia9 filhos conhecidosCatalina Ponce Alarcónc. 1888 – 1953casou-se com Jose Molina Algarte11 filhos conhecidos
José Ponce Alarcón1890 – 1959casou-se com Maria Da Silva Ramos8 filhos conhecidosMaria Concepción Ponce Alarcón1895 – 1971casou-se com Rogerio Martins Garcia9 filhos conhecidos
Lourenço Ponce Alarcón1897 – 1959casou-se com Felippa Peres Barea12 filhos conhecidos
Antonio Ponce Alarcónc. 1899 – 1948casou-se com Purificação Gutierrez Cruz7 filhos conhecidos